Autor
Charles Lutwidge Dodgson (mais
conhecido como Lewis Carroll) nasceu em 27 de janeiro de 1832, em Daresbury,
Inglaterra e morreu em Guidford, Inglaterra, em 14 de janeiro de 1898. Filho de
um pastor anglicano, Lewis Carroll tinha 10 irmãos e cresceu num ambiente onde
aprendeu a contar histórias, cuidar e distrair crianças. Apaixonado por
matemática e fotografia, foi nomeado professor de matemática em Oxford em 1861.
Uma de suas frases mais marcantes era "Gosto de crianças (exceto
meninos)". Como fotógrafo amador, fotografava invariavelmente meninas
entre 8 e 12 anos de idade, com a
permissão da mãe.
Tornou-se famoso por seus dois livros, Alice no país
das maravilhas e Alice no país do espelho, que tiveram como inspiradora Alice
Liddell, de apenas dez anos, por quem ele tinha uma paixão platônica.
Carroll nunca assumiu sua paixão por meninas, que ficou registrada através de
várias fotos de nu infantil feitas por ele.
Não se deve afirmar com certeza que os livros Alice
no País das Maravilhas e Alice através do espelho, sejam necessariamente livros
infantis. “Pois não há nada por trás dos enredos e personagens desses dois
livros que não esteja rigorosamente referenciado, seja através de dados da
própria existência de Carroll, seja através de inúmeras alusões literárias,
científicas, lógicas-matemáticas, etc.” (CARROLL, 1980, p. 7).
Inspiração
Em 4 de julho de 1862, um barco a remo transportava
o reverendo Charles Lutwidge Dodgson numa excursão pelo rio
Tâmisa. Junto a ele, além do amigo Robinson Duckworth, estavam as três irmãs
Liddell: Lorina Charlotte, de 13 anos; Alice Pleasence, de 10 anos; e
Edith, de 8 anos. Cada uma recebeu um apelido, ao longo da viagem, respeitando
a ordem de nascimento. Assim, Lorina foi denominada “Prima”, Alice “Secunda” e
Edith “Tertia”. O evento não era algo incomum na vida daquelas pessoas, o
reverendo acostumara - se a levar as irmãs Liddell em passeios pelo rio, alternando
conversas e contos de fadas inventados em cada ocasião, geralmente esquecidos
nos momentos seguintes. Porém, Prima, Secunda e Tertia foram eternizadas num
poema, que alude explicitamente àquela sexta - feira, naquela tarde de verão. E
a história que povoou a imaginação das três meninas foi anotada, escrita e
reescrita, depois publicada pelo reverendo em 1865, tornando-se um dos maiores
clássicos da literatura de todos os tempos. O poema e a história foram
dedicados a Alice Pleasence Liddell. Assim, Alice no país das maravilhas e
depois Alice através do espelho alçaram o pseudônimo Lewis Carroll à posição de
destaque na história da literatura, marcada pelo pioneirismo no tratamento das
situações e também pelo uso até certo ponto incomum do recurso do nonsense
(termo inglês que indica ausência de sentido) para o público infantil.
O nonsense de Carroll continha um
elemento extra na formação do texto: a matemática.
A obra de Carroll foi constituída através de jogos
de linguagem, baseados na Lógica, nos quais os capítulos só terminam quando as
proposições se esgotam. Carroll usou de seus conhecimentos matemáticos e
lógicos para construir proposições em Alice no País da Maravilhas, sendo muitas
vezes o significado particular da frase superado pela forma, sugerindo
brincadeiras comuns em sua época.
Composição do romance
Os episódios que compõem uma narrativa, localizados
no tempo e no espaço desejados pelo escritor, dependem de algum recurso de
ligação para garantir a sua coerência interna. Este recurso pode ser
estabelecido através do ritmo, do narrador, de um limite de tempo ou até mesmo
de um personagem, entre outras possibilidades.
A análise do sumário da obra, observando os títulos
dos capítulos, permite ver uma colagem de histórias, casos curtos que poderiam
existir independentemente, se não fosse a intenção do autor escrever um
verdadeiro conto de fadas, tornando a viagem pelo país das maravilhas um sonho
de Alice, e fazendo a correspondência ao episódio inicial em que ela lê um
livro enfadonho antes de cair no sono. A Lagoa de Lágrimas, Um Chá Maluco e O
Campo de Croqué da Rainha são capítulos que remetem o leitor a cenas muito
visuais, seja pela descrição nada usual dos acontecimentos ou pelo inusitado
dos diálogos.
A concordância entre o início e o final aparece como
uma prova de coerência na construção da narrativa, pois os leitores não exigem
uma lógica total dos acontecimentos dentro do romance, uma vez que se trata do
enredo de um sonho, universo onde as coisas mais incomuns são aceitas como naturais.
As diversas alusões dentro da obra
Vários personagens e situações de Alice no país das
maravilhas tiveram como inspiração o cotidiano de Lewis Carroll e a
comunidade onde viveu. A personagem Alice foi inspirada em Alice Liddell, filha
de Liddell, amigo de Carroll. Apesar de a menina e a personagem terem o mesmo
nome, ambas eram muito diferentes: Alice Liddell era morena, comum e insípida,
ao contrário da Alice de Lewis, que era loira, esperta e agitada. As irmãs Liddell
eram muito afeiçoadas aos dois gatos malhados da família, Dinah e Villikens.
O frasco de remédio vitoriano era arrolhado, com um rótulo de papel
amarrado no gargalo assim como a garrafa com o líquido que Alice toma para
encolher em sua primeira mudança de tamanho.
Uma chave de ouro que destrancava portas misteriosas era um objeto comum
na literatura vitoriana. A portinha para um jardim secreto era para Carroll uma
metáfora de eventos que poderiam ter acontecido se tivesse aberto certas
“portas”. As doze mudanças de tamanho sofridas por Alice ao longo da história
poderiam estar ligadas ao desejo dele de que Alice Liddell fosse adulta para
que pudesse se casar com ela. O poema da carta usada como prova pelo Coelho
Branco no julgamento é inspirado pela canção Alice Gray, que conta à história
do amor não correspondido de um homem por uma moça chamada Alice.
Carroll pode ter pretendido que a “corrida em comitê” simbolizasse o
fato de que os membros de comitês políticos geralmente correm muito em
círculos, sem chegar a lugar algum, pois todos almejam um mesmo prêmio
político. O dedal tomado de Alice e depois devolvido a ela como prêmio pela
corrida, pode simbolizar o modo como os governantes tomam dinheiro do bolso dos
cidadãos e depois devolvem na forma de projetos políticos.
Mary Ann, na época de Carroll, era um eufemismo britânico para criada. O
coelho
Branco chama Alice assim em um momento no qual dá ordens a ela. Ele está
sempre procurando por suas luvas, peças tão importantes para Lewis quanto para
o Coelho, pois em todas as estações do ano o escritor sempre usava um par de
luvas de algodão cinzentas ou pretas.
No capítulo “Conselhos de uma Lagarta”, a lagarta lê o pensamento de
Alice. “Carroll não acreditava em espiritualismo, mas acreditava na realidade
da percepção extra sensorial e no poder da mente mover ou deformar objetos
inanimados.” (GARDINER, in: CARROLL, 2002, p. 50). A Lagarta fora inspirada nos
professores que davam conselhos na Universidade de Oxford, onde Lewis estudou.
Em toda a história de Alice são encontrados 24 poemas, entre os quais 10
são paródias de poemas e canções inglesas da época de Lewis Carroll. “Os poemas
e os versos que Alice recita, e que parecem não ter sentido nenhum, são sátiras
aos poemas enfadonhos que as crianças inglesas daquela época tinham que saber de
cor.” (www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminario/alice/comosurgiu.htm). A
posição de Alice, de mãos unidas, ao fazer recitações indica que era exigido
das crianças da época saber as lições de cor.
O autor do romance adorava crianças, mas detestava meninos. “Certamente
não foi sem malícia que Carroll transformou um bebê do sexo masculino num
porco, pois não tinha menininhos em alta conta.” (GARDINER, in: CARROLL,
2002, p. 61).
A nogueira onde aparece o Gato de Cheshire ainda existe nos dias de
hoje, no jardim do Colégio de Deanery. O Gato de Cheshire refere-se aos queijos
do condado de Cheshire (onde Carroll nasceu) que tinha a forma de um gato
sorridente. Ao partir o queijo na forma de gato, a tendência seria começar pela
calda até que finalmente só restasse na travessa a cabeça sorridente, o que nos
remete ao episódio no qual o gato desaparece a começar pela cauda e termina com
o sorriso.
O dia do chá maluco não é uma data qualquer, é o dia do aniversário de
Alice Liddell, 4 de maio. Ninguém diria a uma menina vitoriana que seu cabelo
estava comprido demais. A observação “seu cabelo está precisando de um corte”
dita pelo Chapeleiro Louco, na verdade, era uma frase muito ouvida por Carroll,
pois este usava os cabelos mais longos do que era costume. A história que o
caxinguelê conta sobre 3 irmãs que vivem em um poço de mel (Elsie, Lacie e
Tillie), refere-se às 3 irmãs Liddell: Lorina, Edite e Alice. A parte na qual a
Lebre de arço e o Chapeleiro Louco tentam enfiar o Caxinguelê no bule de chá
pode estar relacionada ao fato de que crianças vitorianas costumavam ter
ratinhos como bichos de estimação e conservavam-nos dentro de bules cheios de
capim ou feno.
A Lebre de Março refere-se ao mês do cio das lebres; o Chapeleiro é
louco por causa de uma substância alucinógena usada na fabricação de chapéus; o
Leirão dorme muito por ser um animal que hiberna no inverno e a Falsa Tartaruga
refere-se à sopa de falsa tartaruga, que na verdade é feita com carne de
vitela. Na catedral, onde o pai de Lewis era reverendo, existe talhada em
madeira a imagem do grifo que inspirou o Grifo, amigo da Falsa Tartaruga.
“O grifo é um monstro fabuloso com cabeça e asas de águia e a parte
inferior do corpo de leão.” (GARDINER, in: CARROLL, 2002, p. 91).
“A “Quadrilha da Lagosta” pode ter sido pensada como uma brincadeira com
a “Lancers Quadrille”, dança para 6 a 8 pares que era imensamente popular nos
salões de baile ingleses na época em que Carroll escreveu seus livros de
Alice.” (idem, 2002, p. 97).
Carroll dedicava muito tempo à invenção de maneiras inusitadas de jogar
jogos conhecidos, e talvez por isso, o jogo de croqué da Rainha possuísse
elementos vivos. Camomila era um medicamento extremamente amargo, muito usado
na Inglaterra Vitoriana, e era extraído da planta de mesmo nome, por isso,
Alice afirma que a camomila torna as pessoas amargas.
Durante uma conversa com a duquesa, Alice fica indecisa entre
classificar mostarda como animal, mineral ou vegetal. Trata-se de uma
referência ao popular jogo de salão vitoriano “animal, vegetal, mineral”, em
que os jogadores tentavam adivinhar o que alguém tinha em mente. As primeiras
perguntas feitas eram tradicionalmente: É um animal? É um vegetal? É um
mineral? As respostas tinham de ser sim ou não, e o objetivo era adivinhar corretamente
em 20 perguntas ou menos.
Devido às semelhanças no comprimento dos nomes, e às posições das
vogais, consoantes e letras duplas no último nome, acredita-se que Charles
tenha se inspirado na formação do nome de Alice Liddell para criar seu pseudônimo
Lewis Carroll.
O lado real do país surreal
A obra é cheia de referências ao mundo de Lewis Carroll:
Violência
"Cortem-lhe a cabeça", diz a Rainha de Copas. O trecho revela que os leitores vitorianos não se chocavam com cenas de violência, mesmo se descritas para crianças. "Não se deveria permitir que livros como Alice no País das Maravilhas circulassem entre adultos que estão se submetendo à análise", afirmou o crítico Martin Gardner.
Crítica aos colegas
O reinado da rainha Vitória viu surgir uma nova geração de poetas, como Lewis Carroll e Edward Lear (1812-1888), que trouxeram humor e absurdo ao tradicional formato do poema clássico. Em Alice, Carroll ridiculariza diversos autores famosos na época, como Robert Southey (1774-1843) e Mary Howitt (1799-1888).
Amadurecimento
As transformações corporais sofridas por Alice são uma metáfora para o crescimento de meninas com a chegada da puberdade, oportunidade para inúmeras interpretações psicanalíticas. Carroll, aliás, nunca escapou de analogias (à pedofilia, por exemplo) e críticas a seu carinho por meninas de 8 a 12 anos, entre elas a Alice original.
Existencialismo
"Lagarta para Alice: ‘Quem é Você?’. Alice responde: ‘Eu... nem eu mesma sei, Sir... pelo menos sei quem eu era quando me levantei esta manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então’." Para muitos críticos, tais indagações antecipam a filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre (1905-1980).
Matemática aplicada
Autor de estudos de lógica, Carroll era fascinado por charadas. No capítulo 9, o Grifo (animal mitológico com cabeça de águia e corpo de leão) diz quantas horas por dia estudava: "Dez horas no primeiro dia, nove no seguinte, e assim por diante". Alice responde: "Nesse caso, no décimo-primeiro dia era feriado?" Ela está certa.
Tamanho e o caminho para a maturidade
Alice no país das maravilhas é a narrativa do sonho
de uma garotinha. Como é comum em todos os sonhos, as regras da realidade são
quebradas, e isso é analisado pela própria personagem como em um jogo. A
garotinha precisa entender e resolver o jogo, antes que sua irmã a acorde e a
traga de volta ao mundo real e normal.
Alice é uma obra que permite várias interpretações.
Uma delas é a de que as mudanças, conflitos e aprendizados da adolescência
podem estar representados na obra. Alice entra na aventura sem pensar em nada,
de repente, como se entra na adolescência. A questão do tamanho nos lembra que
a adolescência está presente em todos os episódios da história:
“Alice está sempre crescendo e diminuindo dependendo
da situação e isso certas vezes é conveniente ou não para ela.”
No primeiro capítulo, Alice reduz de tamanho e
parece se tornar insignificante. Essa transformação faz com que ela tenha medo
de encolher até desaparecer. Em alguns episódios, Alice cresce de forma
desenfreada. O adolescente se sente insatisfeito, ao perceber que crescer traz
consigo inúmeras responsabilidades.
Em várias circunstâncias o tamanho representa novas
possibilidades. Pequena, Alice pode entrar no jardim, mas grande, pode pegar a
chave. Grande, sente-se mais confiante no julgamento no final do livro.
Na passagem em que o pescoço de Alice cresce, sua
capacidade de observação se torna mais ampla. Depois de experiências vividas na
adolescência passamos a ter uma nova visão do mundo. Alice considera o país das
maravilhas mais divertido, mas sente saudades do mundo real. O adolescente
adora as novas possibilidades dessa fase, mas sente saudade das facilidades da
vida enquanto criança.
No país das maravilhas, Alice sente que pode usar a
mágica como recurso para tornar-se invencível. Ao afirmar que quando for adulta
vai escrever um conto de fadas, revela o desejo de controlar tudo que acontece
no mundo a sua volta.
Quando Alice fala sobre a dúvida de quem realmente
é, no diálogo com a cigarra, a personagem demonstra um estado confuso típico da
adolescência diante da rapidez com que as mudanças acontecem.
Ao final do livro, Alice recupera seu tamanho
normal, porém a maturidade vinda das experiências vividas ao longo da história
a investe de uma grande coragem para enfrentar o julgamento. Quando Alice
acorda, sua irmã pensa se ao crescer ela conservará o coração simples e amoroso
da infância. Lembra alguém que passou pela adolescência e se lembra dela com
saudades. Nesse momento, a irmã de Alice percebe que ela despertou do sonho
muito mais madura.
Alice e o problema do tamanho
As mudanças de tamanho mexem com o psicológico da
personagem, levando-a a explorar suas capacidades, enquanto impõe novas
circunstâncias a cada capítulo, fazendo o romance progredir.
Tome-se por exemplo um dos episódios iniciais em que
Alice está num grande salão e identifica uma porta pequena na parede, antes
escondida por uma cortina. A menina então encontra uma chave minúscula, sobre a
mesa de vidro, e abre a portinha, revelando um belo jardim. Sua intenção é
chegar àquele novo lugar. E a necessidade de Carroll é avançar no romance,
criando novas peripécias para a protagonista. A transformação do tamanho
aparece, pois, como uma solução para o desejo de Alice (e de Carroll).
O problema do tamanho lida com o crescimento e os
obstáculos encontrados no caminho para a maturidade. A personagem busca se
superar diante de cada obstáculo desenvolvendo a postura de uma heroína, e nem
mesmo a sua constante crise de identidade a impede de continuar questionando e
desejando mudar seu tamanho para ultrapassar portas e adentrar recintos novos.
A última mudança acontece espontaneamente, talvez porque Alice estivesse
prestes a voltar à realidade.
No cinema
Alice no pais das maravilhas ganhou varias adaptações para o cinema e series de TV.




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